Pedro L Cipolla
A sorte persegue a coragem
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Textos
 Saraiva é desses homens que pode ser classificado de boa pinta;. Aos 50 anos carrega ainda um certo charme da juventude incrustada nos seus cabelos brancos Apesar de casado há 15 anos, manteve-se fiel à Zuleika até que ... Explico melhor: a firma em que Saraiva trabalhava, por economia, começou a admitir estagiárias para trabalharem na empresa. Moças jovens, de mais ou menos 25 anos, que procuravam uma oportunidade de trabalho em mercado tão escasso. Homem sedutor que era, e porque não dizer meio safado, Saraiva foi fazendo amizade com alguma delas e se insinuando.Ora nos cafezinhos da tarde ,ora nos corredores da empresa. Daí, oferecer carona ás moças na volta prá casa foi um pulo. E assim, o nosso ex-marido exemplar, foi aos poucos entrando paulatinamente com segundas intenções pela seara do pecado, sempre com a desculpa de que estava ajudando às colegas. Claro que as intenções de Saraiva eram as que o amigo leitor imagina. Primeiro testar o seu poder de charme e conquista, já adormecido há 15 anos e segundo, porque as mocinhas de fato eram um estímulo àquele lobo que se havia perdido parte do pelo,não havia perdido o vício. Entre caronas e conversas Saraiva foi criando uma certa intimidade com as moças da empresa. Como o que mais corre é boato, ele começou a ser conhecido por todas as estagiárias e a sua fama de amante experiente cresceu tanto que a sua carona ,acreditem, começou até a ser disputada por aquelas mais bobinhas que caíam no seu papo de casado desprezado No final o que acontecia, é que nessas idas e vindas Saraiva com umas mais e outras menos, fazia das suas a ponto de, antes de entregar a mocinha em casa, parar em alguma rua mais afastada e ali dar prosseguimento ao que haviam começado.. Quem já namorou sabe que trocar carícias em certas áreas do corpo,, uma vez tocadas, dificilmente permitem ao mesmo que ele se aquiete cedendo ás vontades do prazer. Como motéis estavam afastados, tanto da possibilidade financeira de Saraiva, como pelo risco que ofereciam dele ser descoberto pela Zuleika sua mulher,permanecia no carro fazendo suas peripécias.amorosas.entre uis e ais.Estacionavam o carro num lugar ermo onde a vontade era maior que o medo de serem assaltados. Na medida em que as carícias iam avançando o interior do carro ia virando uma grande bagunça de roupas, blusas, meias e calcinhas tiradas pela sofreguidão dos amantes. Não raro tinham que se vestir às pressas se algum transeunte se aproximasse O problema maior não residia aí e sim nas “pistas” que estas aventuras rocambolescas poderiam deixar no “local do crime”, o carro, e serem achadas inadvertidamente por alguém da sua família quando saíssem para passear ou fazer algum daqueles piqueniques no litoral. Para isso Saraiva já havia programado por segurança,antes de fazer qualquer passeio com a família, a “revisão”. A “revisão” consistia de uma procura minuciosa dentro do carro,de qualquer objeto que pudesse comprometê-lo ou denunciá-lo com suas aventuras rocambolescas Várias vezes encontrou ,por entre os bancos, pontas de cigarro com batom, lápis de sobrancelha, fitas de cabelo,grampos e pasmem:até uma calcinha! Esta “revisão” era sagrada para ele.Disto dependia a sua segurança da tão decantada fidelidade ao casamento. Acontece que na noite anterior, depois de uma “carona”, Saraiva foi para casa e como estava muito cansado resolveu fazer a “revisão” só no dia seguinte:sábado. Pela manhã é despertado com o alarido da família, querendo a todo custo, fazer um piquenique à Praia Grande, uma vez que o dia estava lindo.A sogra havia trazido até as coxinhas de galinha e o frango com farofa. Não poderia dizer não,até pela sensação de culpa, à tão carinhosa mulher e aos dois filhos pequenos que agora penduravam-se no seu pescoço gritando: ”Vamos papai!”. Meio entorpecido pelo sono Saraiva põe toda a tranqueira no carro (a sogra, inclusive) e parte em direção ao litoral para o tão festejado piquenique. A gritaria da criançada e a balbúrdia vão fazendo Saraiva se distrair e começar até a cantar. No rádio toca uma música de Leonardo que Saraiva desafinado procura acompanhar: “Amor traído não merece revisão...” REVISÃO? Aquela simples palavra despertou em Saraiva uma descarga de adrenalina tão intensa que ele começa a suar frio.Em pânico pensa: “Meu Deus! Como é que eu fui esquecer de fazer a” revisão “? Também a gente saiu correndo e eu esqueci!!” Suas mãos apertavam fortemente a direção do automóvel como reflexo do seu desespero.Em fração de segundos passou pelo seu cérebro toda a bandalha que praticara até então. O suor insistia em correr frio pelo seu rosto enquanto disfarçadamente olhava pelos lados à procura de algo ou algum objeto que pudesse comprometê-lo. Virava tanto os olhos que parecia que eles sairiam das órbitas na vã tentativa de faze-los percorrer um raio de 360º. Dentro do carro todos estavam muito excitados para perceberem qualquer mudança na situação, exceto a sogra, que graças a Deus, roncava no banco de trás.Ainda bem, pois se existisse algo, ele tinha certeza de que ela seria a primeira a encontrar. Como a procura visual resultara em nada, Saraiva passou então a fazer disfarçadamente uma procura tátil de algum objeto estranho que pudesse estar por entre os vãos ou embaixo dos bancos do carro. Discretamente, como alguém que quisesse se coçar enquanto dirigia, foi enfiando uma das mãos por entre os vãos dos bancos à procura do que nem ele mesmo sabia. No desespero das apalpadelas descobre embaixo do banco, uma sandália... “Quem poderia ter esquecido esta sandália aqui meu Deus?” Agora não era hora de saber quem, mas como se livrar do objeto que o denunciaria. Alegando a visão de um pássaro raro, aponta para o céu fazendo com que a família toda se volte para o outro lado, podendo assim, jogar pela janela, atirando na Serra do Mar, aquela que seria a prova cabal da sua safadeza. Mas se existia um pé deveria haver o outro... Como um cego desesperado vai palpando por entre os bancos até que finalmente encontra o outro pé da sandália. Repete a mesma balela da visão do pássaro raro e consegue, sem que ninguém perceba, se desfazer da sandália que seria a decretação final do seu casamento. Aos poucos, passado o desespero, Saraiva vai recobrando a calma perdida e começa até a sorrir.De fato ele tinha um anjo da guarda muito forte.Não fosse a música de Leonardo não se lembraria de revisar o “local do crime”. Ainda bem que deu tempo!Desta ele escapou. Finalmente chegam à praia do tão atribulado piquenique. As crianças abrem as portas do carro e saem em desabalada carreira em direção ao mar. Ele desce do carro e estica as pernas, sentindo no calção molhado o suor do pânico pelo qual passara. Sua mulher pega a cesta de piquenique e grita: “Mamãe! Venha logo!” “Já vou Zuleika. Só preciso descobrir onde é que essas benditas crianças esconderam as minhas sandálias!”
Pedro L Cipolla
Enviado por Pedro L Cipolla em 01/02/2021
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