Pedro L Cipolla
A sorte persegue a coragem
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Edifício COPAN,666

Edifício Copan , 666
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Como policial da 5ª de homicídios fui chamado para constatar uma ocorrência no centro de São Paulo. O velho edifício COPAN dos anos 60 com 330 cubículos.
Um prédio onde tempo e o descaso trincaram paredes, quebraram vidros, janelas e onde os vazamentos deixaram grandes manchas pelas paredes desbotadas.na relíquia ,dos anos que se passaram.
Apertei o botão do sexto andar, por mera dedução, uma vez que o nº. 6 do painel estava totalmente apagado, como todos os outros números. .
À medida que o elevador subia, rangendo a duras penas , odores no ar iam se misturando.Óleo de fritura, cigarros, alfazema, uma mistura que dentro daquela gaiola causava enjôo.
À medida que chegava ao 6° andar ,local da ocorrência,eu ouvia o som de uma vitrola Sonata,daquelas bem antigas ,que podia-se imaginar o seu estado pelo som que emitia..Estranhando também ouvir uma obra como essa em lugar tão i..ncompatível.
O elevador parou e abrí a velha porta pantográfica. Desci , apartamento 666,no fim do extenso corredor,
Respirei fundo...Entrei !
O cenário de imediato era o de uma televisão quebrada num dos cantos da pequena sala, de cujo teto saía o fio que então prendia, pelo pescoço, o corpo inerte de um suicida.
Baixo,mais ou menos 1,60 de altura, 50 kg, uns 40 e poucos anos,a barba por fazer de há muitos dias, cabelos grisalhos maltratados ,sujos, como os de alguém que muito antes de desprezar o próprio corpo, provavelmente já havia decidido desprezar a própria vida.
.A .pele branca enrugada ,marcada com as rugas do tempo e outras que só o sofrimento conseguiu marcar. O cheiro acre que exalava do corpo me fazia supor que o álcool devesse ter sido seu maior conselheiro.
Num dos pés, um tênis velho e destruído e noutro o pé descalço faziam-me pensar na dificuldade de realizar a decisão que tomara sabe-se lá Deus quando., de se autodestruir.
Voando,com um zumbido irritante ,uma mosca azulada alternava seu pouso entre a vida e a morte. Circulava pelo cubículo imundo como se eu fosse um turista, e ela o cicerone do inferno.
O pequeno quarto contava apenas com um vaso sanitário e uma pia quebrada, com uma torneira reticente que pingando insistentemente marcava o tempo sem compasso
Os olhos do morto ,ainda abertos ,,fixados no nada,pareciam mostrar um olhar pasmo para a vida que se foi.
A cadeira caída no canto da sala mostrava o cadafalso do suicida e junto a um pedaço de papel de carta rasgado, que a minha curiosidade já previa: “ outra vez...nunca mais...meu ódio...só a morte ...perdoar...trapo humano... “


A mosca ordinária rodopiava e saltava rápida e ligeira fazendo a dança de um balé macabro ,de onde ela era a “ prima ballerina” . insistindo para que eu fosse embora
Me dirigi ao elevador pensando em como minha profissão era deprimente. Terminei minhas anotações ,e percebendo o elevador quebrado ,desci pelas escadas, prestando mais atenção e à medida que o fazia, ouvia a vitrola do vizinho tocar entre sulcos e arranhões,o que parece ter sido o fundo musical determinado pelo destino : Sonata para piano a “ Marcha Fúnebre “ de Chopin.
Foi aí que imaginei que se o inferno existe ele tem nome e endereço, e eu acabei de visitar sua ante-sala
 
Pedro L Cipolla
Enviado por Pedro L Cipolla em 18/09/2020
Alterado em 30/09/2020
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