Pedro L Cipolla
A sorte persegue a coragem
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Textos
Almas gêmeas
                                            


           Ah! A solidão mata...
          Foi assim pensando que Alfredo, um cinqüentão machista, descasado há muitos anos,cansado de freqüentar saunas com os amigos, entrou  no piano bar “Alone again”, em Ipanema.
          Já nem se lembrava quantas vezes  tinha estado lá à procura de um alguém. Alguém que realmente o completasse a quem ele pudesse dedicar todo  o amor de uma vida vazia ou pelo menos o que restava dela.
         Após sua separação, havia ficado om outras mulheres,por algum tempo, mas por um motivo ou por outro, acabava em  se cansando e a separação era sempre inevitável.
         Recentemente havia lido um livro no qual a "alma gêmea", o grande amor de uma vida, sempre existiu. A única questão era como e quando encontrá-la.Para o escritor do livro encontrar alguém que o completasse era fácil,o que o que Alfredo discordava veementemente.    
         Ah! Quanta insatisfação ! Palavras de amor que só o álcool conseguia por em sua boca, e que só com o despertar da manhã já o faziam esquecer.
         Após o 3º uísque, o olhar que corria vago e tímido,  aguça os  sentidos  como uma fera que espreita a presa.O torpor em que Alfredo estava de repente é  sacudido pela abertura da porta do bar, que por instantes parecia a do Olimpo.    
        Adentra, Aline! Possível reencarnação da índia Potira,uma beleza exótica e morena de longos cabelos longos e negros que brilhavam, mesmo à luz mortiça do ambiente.Um belíssimo vestido vermelho,com um decote até o umbigo conseguiram calar o burburinho das conversas e deram uma pausa repentina na música deixando no ar o perfume de sua presença..Seu caminhar, em direção à uma das mesas do bar, criou um vazio mostrando o que a presença de uma fêmea, na acepção da palavra, pode produzir no animal homem. Aos  poucos o burburinho das vozes foi se transformando em murmúrio e aumentando gradativamente de volume até que os homens se acostumassem ao impacto da sua presença tão marcante.
       Alfredo, sentindo o coração saindo pela boca,venceu a timidez, e estimulado pela valentia encorajadora do álcool,se precipita sobre Aline,antes que um outro gavião solitário assim o fizesse ,e esfacelasse de vez aquela ,que segundo ele, seria sua última oportunidade de ser feliz.
A partir daí sua vida tomaria um rumo destarte que já não seria o mesmo.O que parecia tão impossível tomava agora feições de um futuro  de amor e prazer tão sonhados pelo nosso herói.Sua provável alma gêmea,tinha certeza, materializava-se naquela deusa que acabara de atravessar o portal do “Alone Again “.Nome que Alfredo achava agora obsoleto.
Aproximando-se da moça e com a voz um tanto embargada pela emoção,ele se apresentou:
- Prazer, Alfredo.
- Encantada, Aline ...respondeu a moça, demonstrando um grau de timidez  que lhe embelezava com um certo ar de inocência..
A cada minuto de conversa, mais Alfredo se encantava com Aline.
Viúva desde há um ano e saindo agora do luto, pensara em distrair-se um pouco e para tanto saíra para espairecer vendo um pouco de movimento não tanto por ela, mas pela insistência de uma amiga.
Alfredo que era muito exigente com as mulheres que até aquele sotaque paulista,que ele tanto ridicularizava nos outros, com os rr de “porrta”, “torrta”,na boca de Aline agora soavam como música aos seus ouvidos.
    De fato, Aline,como por encanto mexera estranhamente com todos ,os sentidos de Alfredo.Um homem já tão vivido parecia que agora , como um menino,  pela primeira vez, descobrira aquela paixão que somente parecia existir nos livros ou nos filmes.Pela primeira vez sentia-se nas nuvens ou o que sonhava com ela.

  Já tarde da noite, levando-a para casa, um belo prédio de apartamentos na Barra, Alfredo,excitado pelos uísques e a sensualidade de Aline , tenta resgatar em minutos, todos os afagos que sua carência afetiva implorava.Ela tímida, indefesa, recua...A viuvez justifica a sua recusa e o seu pudor.
      - Por favor, vamos a um último uísque em sua casa ? Ou então na minha ?
       Aline, como o inconsciente de Alfredo talvez quisesse ,provando sua viuvez honesta, nega...Apesar dos tempos de liberalidade uma aventura passageira só poderia empanar o brilho de um grande amor que naquele momento se prenunciava..
- Não, hoje não Alfredo.Nem te conheço direito e alem disso,justo hoje,você sabe...Coisas de mulher...Depois o mundo não foi feito em um dia.
      Alfredo que no fundo sempre pensou que não poderia ser sócio de um clube que o aceitasse como sócio, concorda resignado valorizando a conduta moral de Aline.
      Assim, era exatamente assim, que ele queria sua alma gêmea.Vivida porém recatada, insinuante porém discreta, tímida  deixando antever um vulcão queimando dentro do seu  corpo de deusa.
     De fato, estava cansado da rotina do “vamos logo”. A paixão supera a vontade de dois animais no cio que não têm a menor sensibilidade além do instinto.
   Sensibilidade que faltava à muitas mulheres. Aline era diferente !
   Entregaria agora, as rédeas do seu tão desiludido coração, àquela que o guiaria pelo caminho da felicidade.Jurava que agora seria pela última vez...
     Afinal, estar com Aline tornou-se o objetivo maior da vida de Alfredo.Conviver com ela, conhecendo-a melhor, deixando esta relação amadurecer, podendo assim colher  frutos mais doces.Vingar-se-iam agora do tão amargo e insatisfeito passado que certamente deixara marcas profundas em ambos.
A partir daí, foi aquela cara porém deliciosa rotina : jantares , cinema, teatro.
     Um dia, na sauna,um amigo ,seu confidente,vendo-o  tão animado  e sabendo do amor dos dois perguntou conhecendo o vivido Don Juan
     - E daí, Alfredão? Ela é boa de cama?
- Não, essa não é como as outras.Prá você ter idéia nós ainda nem transamos.Essa é honesta.Estamos esperando o momento certo...Estamos nos curtindo...
- Vê lá hein Alfredão .Quando a esmola é demais o santo desconfia.
- Que bobagem,Soares Você me conhece bem.De mulher  eu entendo .Sou macaco velho.
Enfim,num belo dia,entre abraços apertados, beijos desesperados,respiração ofegante, os corpos clamando por sexo , Aline e Alfredo resolvem programar um fim de semana em uma praia deserta.Não em uma qualquer, mas naquela onde os dois pudessem chegar ao apogeu idílico,tão desejado, entre  um homem e uma mulher podendo assim colher a flor que foi semeada ,sendo fruto do desejo de dois seres que se amam chegando ao máximo do prazer. Santo Antônio de Itaboraí, no litoral fluminense, foi onde Alfredo alugou  uma casinha de pescadores dentro da areia da praia.
Ali, os encantos do mar e o clima primitivo da casa os  envolviam , fazendo com que os futuros amantes imaginassem todas as  loucuras que estavam por vir.
    A casinha era simples,com o chão de areia e uma cama de casal,que poderia ser comparada a um catre.Agora pareciam as nuvens pousadas sobre um céu azul, que Aline fez questão de forrar com um lençol de cetim vermelho.
Aline, com uma roupa branca esvoaçante, sai da cabana e corre em direção ao mar,como nos filmes de cinema, fincando na areia uma vela branca, bem onde as ondas do mar deixam as suas últimas espumas.,o que deixa Alfredo curioso.
  Prosseguindo no ritual:
- Estou agradecendo a Iemanjá,  por ter te encontrado e para que ela abençoe o nosso amor! Êpa hêi Iemanjá
Após algumas garrafas de vinho, histórias lacrimosas, juras de amor, lágrimas,desejos...
    - Se eu pudesse...Meu maior sonho seria  ter um filho teu.Com essa tua carinha de safado...
  Alfredo cria coragem e confessa nunca ter tido filhos.Fato que Aline não sabia e que o amante escondeu até agora.Nunca os quis. Achava que atrapalhariam o casamento.Na verdade deveria ter seguido o conselho de sua querida mãe (que Deus a tenha) e não ter se casado nunca.Sua mãe dizia que ele não fora talhado para o casamento. Quanta saudade de sua mãe...Duas lágrimas sentidas ,profundas,escondidas em algum canto escuro da alma  rolaram ao mesmo tempo pela face de ambos.Lágrimas de almas gêmeas...Como se a vida deles tivesse se misturado desde o começo mostrando o que eram e o que queriam ter sido.
  E aí os corpos se encontraram, sofridos e maltratados pelo destino, na ânsia louca do amor e do prazer. Os dois se buscando desesperadamente.Lábios sedentos , mãos deslizando pelos corpos, sussurros incompreensíveis.Línguas,cobras da sedução,em  excitação máxima ! Pernas, peitos, coxas e um ai meu Deus !
    A loucura do descontrole. Aline procurando Alfredo.. e Alfredo procurando Aline, acha... Aline  era...ELE !
   Num misto de dúvida , surpresa, espanto e pasmo, Alfredo pára.Olha bem nos fundo dos olhos de Aline que suspende a respiração ansiosa e ofegante e balbucia:
- Beije-me amor. Você é minha verdadeira alma gêmea !
-
     Aline, digo Alinelson Silva de Jesus, 23 anos, solteiro, carioca,natural de Pau   Grande,Estado do Rio,reservista de 1a categoria da Marinha,dá entrada,no pequeno pronto socorro de Santo Antônio de Itaboraí, morto,vítima de uma violenta garrafada na cabeça.

N Autor :    Ah ! O amor é cego...e a solidão mata ...  
Quando o amor acontece a gente esquece o que sofreu um dia..."
“Quando Deus fez o sapo, fez também a sapa "
                                              



                                                                                                                        
      

    


Pedro L Cipolla
Enviado por Pedro L Cipolla em 31/12/2019
Alterado em 25/08/2020
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