Pedro L Cipolla
A sorte persegue a coragem
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O Cantor de Jazz
                                          

                                            


           Ah! Como é triste envelhecer…
          O que não faz um cinquentão vaidoso na tentativa de tentar
          conter o tempo, naquilo que ele tem de mais implacável: as
          marcas.
          Como um lutador de boxe, prestes ao nocaute, segura-se às
          cordas do ringue,com todas as suas forças,para não perder a luta.
          Para evitar,ou pelo menos para diminuir, as rugas do rosto, passa
          um bom tempo em frente ao espelho,fazendo ginástica facial,
          parecendo mais um mico faminto vendo uma banana.
          E as tentativas vãs de encolher a barriga, que insiste em
          transbordar da calça,fazendo com que sua inspiração seja cinco
          vezes maior do que a expiração ?
          O que não dizer então de tudo o que passa na cabeça, tentando
          conter a calva que se agiganta, insistindo em empurrar sua testa
          para trás? Até titica de pomba...
           E a dolorosa depilação daqueles pelos, que deveriam nascer na
             cabeça, e insistem em nascer dentro do nariz?
           Era assim que me encontrava quando minha mulher apareceu
           com uma novidade: o “Bronzeador de Bolso!”
            Era um destes produtos, comprados pela televisão, que
            prometiam um bronzeado duradouro, sem a necessidade de se
            tomar sol.
            Puxa, pensei, que maravilha, já pensou ficar rapidamente com
             aquela cor do Yul Brinner, em “O Rei e Eu”, ou então do Kirk
             Douglas em " Spartacus " ?
             Pelo menos quando fosse à praia, expor minhas
             vergonhas,estaria bem bronzeado.
             No frasco dizia: modo de usar, vide bula.
      -      Cadê a bula? Perguntei à minha mulher.
      -     Sei lá! Devo ter deixado em algum lugar.
      -      Bom; também este creme não deve ter muito segredo.
             Ah! Vaidade...
             Antes de dormir besuntei meu rosto no afã do tal bronzeado i
            instantâneo.
            No dia seguinte, quando fui olhar no espelho...
              Meu rosto estava todo preto, e em volta dos olhos, onde não
              havia passado creme, estava tudo branco.As mãos, todas
               manchadas.
              Os lábios haviam passado para o estágio de “beiço”!
              Eu estava a cara do Al Johnson, no “O Cantor de Jazz".
              Justo nesse dia minha vizinha resolveu tocar a campainha,e o
             pior ,minha mulher tinha ido trabalhar.Como eu não atendesse
            ela estranhou e insistiu, pois eu não costumava sair de casa
             àquela hora.
    
            Então ela  resolve chamar o zelador. Desesperados,os dois,
            começam a gritar meu nome e a bater na porta, pensando que
            algo de pior tivesse me acontecido. E eu desesperado lá dentro
             rezando para que eles desistissem
              Eu lá de dentro gritava:
          - Hum ! Hum !
             Gritar, eu gritava, mas os lábios não se mexiam.
             Resolvi então abrir a porta...
            Quando me viram, não puderam disfarçar o espanto.
            Eu com aquela cara preta e branca, com os lábios que mais
             pareciam duas salsichas de peru.O Allien perto de mim
             pareceria o Brad Pit.
            A única coisa que consegui fazer foi um positivo com o polegar i
           ndicando que estava tudo bem.
           Graças a Deus,como tudo que se vende pela televisão, o
          inquebrável dura dois dias e o duradouro três.
          Foi a última vez que vi minha vizinha,isto é ,a penúltima, pois na
           última ela me pegou com uma máscara de pepino e a cabeça c h
           eia de creme chantilly...
          Ah!a vaidade…                                                                                                                                          
Pedro L Cipolla
Enviado por Pedro L Cipolla em 17/12/2019
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