Pedro L Cipolla
A sorte persegue a coragem
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Textos
O coma

Ninguém morre na véspera e com Aderbal não poderia ser diferente.
      Tá certo que ele abusava um pouco ao volante correndo mais do que deveria.Corria com uma certa tendência suicida..O que um psicanalista chamaria de pulsão de morte ,mas prever o que aconteceria naquela noite seria mera especulação.
      Chovia muito e Aderbal, com  pressa de chegar à casa, acelerava mais e mais na pista escorregadia daquela estrada do interior,da cidadezinha na qual  tinha ido visitar um cliente.
     Aos 45 anos, casado há 15 com Matilde e pai de dois adolescentes, já vinha há um bom tempo  desentendendo-se com a mulher e ainda como corretor de imóveis o seu trabalho contribuía e muito para o seu descaso com a vida.
    O país naquele eterno desequilíbrio econômico e Aderbal desgostoso de entra ano sai ano ter que se adaptar a novos, mirabolantes e inócuos planos financeiros  que os economistas  inventavam.
     Era crise após crise e, evidentemente, esta situação acabava também se refletindo no seu casamento.Só não se separava da mulher por causa do maldito dinheiro tendo que ficar vivendo um relacionamento falido.
     A chuva aumentava...Mais aceleração...A curva! A derrapagem! E o choque violento contra a mureta...

     *****

      No Hospital

     - Se conseguir sair desta será um verdadeiro milagre!
     - Pressão sanguínea caindo! Aumentem o soro e tragam mais um litro de sangue, rápido!
- Vamos operar de qualquer jeito! Ele está muito mal.Que estrago, hein?Já para o centro cirúrgico!

- Sinais vitais?
     - Pressão oscilando muito.Taquicardia com extrassístoles freqüentes.Fibrilando!
    - Vamos!Pince logo esta artéria não consigo ver nada com esse sangue! Enxuga!
    - Mais sangue!
    - Coração parou!
    - Reanimação! Desfibrilador! Massagem cardíaca, rápido!
- Não adianta mais...Entrou em choque.Pressão zerou.

    - Espera aí! O coração voltou a bater!

DOIS ANOS DEPOIS...

- É impressionante como depois de todo este tempo ainda continua vivo.É um touro! Murmura  Matilde, a mulher.
A sogra não perde a oportunidade:
    - Vivo? Vivo não! Como disse o doutor: ele tem atividade cerebral. Daí dizer que ele está vivo é muito otimismo da sua parte. Eu por mim desligava logo esses tubos todos e deixava ele ir embora de uma vez. Não fosse o convênio, com o preço da UTI, nós já estaríamos dormindo embaixo da ponte.E olha que eles já estão ameaçando a gente de não pagar mais.
    - Não fale assim mamãe.O Aderbal está com uma aparência tão lúcida.Parece que está dormindo, coitadinho.E pode ser que ele volte a acordar.Cê não viu aquele caso no Fantástico em que uma mulher ficou 8 anos em coma e depois voltou ao normal? Os milagres existem e eu tenho fé em Nossa Senhora do Perpétuo Socorro de que em breve terei o meu Babal de volta. Os  médicos me disseram que enquanto houver vida há esperança.
  - Acorda Matilde ! Você sempre foi meio idiota mesmo.!Parece que você também está em coma mulher.Já tem 2 anos que esse homem está assim.Retruca a sogra.
   De repente “esse homem”, mexe um dedo… depois a mão… Os dedos e a outra mão...Abre os olhos...    MILAGRE!
- Onde estou? O que houve? Balbucia Aderbal
          A mulher cai de joelhos (a sogra não, alegando reumatismo) e aos prantos grita:
       - Amém Jesus, nossas preces foram ouvidas!
       - Babal, meu querido! Eu tinha certeza de que você não morreria.
      Choradeira.
      Após a conscientização e acalmados os ânimos...
      Matilde responde eufórica à curiosidade do “renascido”.
   - O que aconteceu nestes anos  em que você dormiu meu amor?
  Ora, o júnior, com todo aquele talento artístico que  você já previa, está estudando balé e imagine querido, é o danadinho quem desenha e costura suas próprias roupas!
  A Julinha está grávida, você vai ser vovô.Mas logo logo vai se casar com o "Azeitona”, o beque do Matonense.Ele tem um grande futuro.Imagine que já tem uma promessa de ir jogar num time da Bolívia.
  A mamãe,como você está vendo, está firme e forte e com uma saúde de ferro, graças a Deus. Não é mamãe?
      O Brasil, bem o Brasil...Lembra do Lula ? É! Aquele! É o presidente da República.Tanto fez que conseguiu.Diz que vai acabar com a fome do Brasil, mas até agora não fez nada.
       Matilde animada continua:-
     - Você fica tão bonitinho com esses olhinhos arregalados.É sinal que já está bom.Mas como eu ia dizendo!O Itamar lembra? O fundador  da República do Pão de Queijo.Parece que vai ser o embaixador do Brasil na Itália.O que eu acho engraçado é que ele não tem curso no Itamaraty e o pior é que ele nem fala italiano.Bom, mas se ficar um pouquinho na Itália ele aprende, né?O Sarney lembra dele?É o presidente do Senado. Agora é imortal. Faz parte da  Academia Brasileira de Letras. Não me pergunte que livro ele escreveu, acho que os “Gafanhotos de Fogo”, ou qualquer coisa assim, pois até hoje também não conheci ninguém que tenha lido o livro dele.
      O Juiz Lalau já está em casa descansando.Coitadinho, né?
      A Economia? Bem, não mudou muita coisa.Os escândalos continuam acontecendo.O do INSS, o dos precatórios em que estão envolvidos muitos políticos.AH! E o governo vai tachar mais ainda aos aposentados.
      O pessoal fala em superávit da balança comercial, mas todos os teus amigos lá da rua e do bilhar estão desempregados.Bem, você sabe, eu nunca entendi muito dessas coisas.Só sei que deu no Jornal Nacional que agora o pobre já tem motivos de sobra para ser cada vez mais feliz.
      Você notou que eu engordei um pouquinho? Só 18 quilos...
     O futebol? Ah, o Palmeiras,o time do teu coração,foi para a segunda divisão.Que chato,né?Você torcia   tanto...
      Mas meu amor é melhor você descansar agora, parece que pela tua carinha você está até assustado.É de felicidade né meu anjo?Os médicos pediram para te deixar sozinho para você entrar em contato devagar com a nova realidade.Certamente a emoção é muito grande.
     Como Deus foi bom pra nós!Termos você de volta!Eu nunca perdi as esperanças, meu amor.
   Matilde, num misto de alegria e espanto, sai do quarto quase que como se estivesse reverenciando um santo.
Aderbal gradativamente, na solidão do quarto, vai tomando contato com a nova realidade.Quem diria, hein Aderbal?Como dizia a sua vó “Vaso ruim não quebra!”.
    Milagre.O verdadeiro milagre da vida.Poder viver de novo. Respirar.
   Cambaleante vai até a janela do quarto de hospital  para olhar o céu, sentir o cheiro da rua e o barulho dos automóveis, um bom dia à nova vida; um brinde imaginário ao seu renascimento.
    Reúne todas as fôrças que lhe restaram, abre bem os braços como se fosse abraçar o mundo, respira bem fundo,dá um último suspiro e pula da janela do 8º andar .Esperando que desta vez seja a última...


Pedro L Cipolla
Enviado por Pedro L Cipolla em 21/10/2019
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